20 Erros ao Fazer a prova do Enem e o Árduo Processo
Desde que abandonei as salas de cursinho pré-vestibular há alguns anos, morando neste apartamento úmido e barulhento no centro de São Paulo, vejo a mesma cena se repetir todo mês de novembro. Os jornais debatem a qualidade da educação no Brasil, mas ignoram o que acontece no chão de cimento das escolas estaduais. Existe uma lista não escrita de 20 falhas institucionais graves cometidas contra os adolescentes nessa época do ano. Digo isso porque fazer a prova do Enem nunca foi um teste de conhecimento puro, mas um experimento de resistência humana. A cobrança cai nos ombros de jovens de dezessete anos que muitas vezes mal sabem fritar um ovo, mas precisam decidir o rumo da vida adulta em dois domingos ensolarados.
O Suor Frio no Portão de Ferro
Trabalhei como fiscal de corredor por três anos seguidos logo após sair da docência. Vi de perto a coreografia do desespero e posso atestar que a ruína de um estudante começa muito antes de ele ler a primeira questão de matemática. O passo a passo da queda é sempre o mesmo. Primeiro, o garoto acorda com o estômago embrulhado, forçando um café da manhã seco que o corpo rejeita quase imediatamente. Depois, entra na van lotada do bairro ou no ônibus de linha, suando a camisa debaixo do sol do meio-dia antes mesmo de avistar o muro da escola. Por fim, senta em uma cadeira de madeira torta com a base desnivelada, desenhada para machucar a coluna vertebral de qualquer ser vivo que fique ali por quatro horas. O nervosismo aliado a esse desconforto físico acaba com meses de cursinho em poucos minutos, pois a mente perde a guerra para o corpo.
O modelo de avaliação exige que o aluno leia dezenas de textos longos sobre assuntos variados em uma única tarde. Aquele silêncio cortante na sala, interrompido apenas pelo barulho de alguém mastigando um salgadinho fedorento de queijo... ou então o, quer dizer, a pessoa tentando abrir a embalagem de biscoito que rasga de lado e faz aquele som áspero que ecoa nas paredes. Esse é o exato momento em que a concentração morre. O debate público passa longe dessa realidade miúda, agindo como se a tensão da sala não interferisse diretamente no número de acertos.
O Mito da Caneta Preta
Entre as 20 decisões absurdas de quem elabora o formato do exame, a mais simbólica delas é a burocracia do tubo transparente. Os fiscais conferem o material da sua caneta com o rigor de policiais de fronteira, mas ninguém dá a mínima para a ansiedade que esmaga o seu peito enquanto o relógio corre. A escolha de obrigar o adolescente a fazer a prova do Enem sob a pressão de regras tão pequenas cria uma geração que teme mais ser desclassificada por um detalhe banal do que por errar o cálculo de química. Eu sempre dizia aos meus alunos que o governo adora criar obstáculos físicos e regras de segurança teatrais apenas para mascarar a dura falta de vagas nas universidades. É uma peneira calcada no cansaço.
Se você quer uma instrução real para o dia do exame, pare de ler cartilhas coloridas que mandam você "respirar fundo". Na hora de encarar o caderno de questões, leve apenas uma garrafa de água, ignore a respiração ofegante do candidato sentado na fileira ao lado e leia as perguntas antes dos gigantescos textos de apoio. Aceite desde já que o seu pescoço vai doer e que a cadeira vai balançar. A realidade do domingo de exame é crua, repleta de falhas de impressão na folha e fiscais exaustos que só querem entregar a ata e ir dormir.
Termino meu café amargo lembrando de um aluno brilhante do período da noite, o Tiago, que rasgou o cartão de respostas ao meio por puro esgotamento nervoso faltando dez minutos para o encerramento dos portões. A tragédia silenciosa do estudante brasileiro está documentada nessas pequenas explosões que não entram nas reportagens de televisão. Sobreviver a esse moedor de carne e conseguir fazer a prova do Enem até o último minuto exige uma frieza que beira a apatia, um traço que a grande maioria dos adolescentes felizmente ainda não tem.
Comentários
Postar um comentário