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Como a Premissa do Sinal Silencioso da Galáxia Revela Quem Somos
O frio do metal da lente do telescópio sempre me lembra do abismo que temos sobre nossas cabeças. Para alguém como eu, Rogerio Marques — um escritor que ganha a vida rodando pelas estradas do mundo, casado, pai de duas crianças e com uma fixação de anos pela ufologia —, o isolamento no cosmo bate na espinha como um vento de gelo.
Ouvi um debate recentemente onde mentes afiadas discutiam o medo terrível de não estarmos sozinhos. A história aponta que os encontros entre povos de origens diferentes sempre deságuam em sangue e domínio, uma marca de opressão constante da nossa espécie.
O fato amargo bate na porta: jogamos nossa própria sombra destrutiva nas estrelas. Achamos que qualquer visitante fará conosco o que fizemos aos nossos antepassados. Enquanto eu digitava esse pensamento sombrio, um barulho forte me assustou. Roswell, meu gato mestiço e estabanado que peguei numa viagem pelo Novo México, escalou a prateleira e derrubou minha caneca favorita de porcelana. Pedaços espalhados pelo chão de madeira do escritório.
Minha esposa frequentemente avisa para não deixar objetos soltos perto da beirada, mas eu, na minha desatenção de sempre, esbarro em tudo. Olho os cacos no tapete e penso na nossa própria quebra violenta. O primeiro contato extraterrestre não trará uma troca pacífica e sorridente, mas um choque brutal de naturezas.
O Escudo Contra o Desconhecido
Nós nos abrigamos no conceito obscuro da "floresta negra", a ideia pesada de que todos os caçadores do espaço estão escondidos, calados, prontos para o bote fatal ao menor som. Ao observar meus dois filhos dormindo no quarto ao lado, sinto um nó apertado na garganta. Meu dever na vida é erguer um muro grosso entre eles e os perigos lá de fora, mas de que forma eu escondo o céu inteiro?
Se uma nave metálica furar as nuvens amanhã, quem enviamos para falar em nosso nome? Líderes políticos cheios de falhas morais? O podcast que eu escutava sugere vozes com raiz na terra, como Ailton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro. Homens que sentem o peso da história e a lâmina da colonização na pele.
Eles teriam a densidade de espírito necessária para olhar nos olhos frios de quem chega e pedir calma. Eu abraçaria meus meninos com força se pudesse parar os ponteiros do relógio, sabendo perfeitamente que as cortinas de tecido fino não impedem a luz cortante de outras galáxias. Somente o cuidado extremo e a sabedoria acumulada dos nossos melhores anciões podem nos abrigar da ameaça que nós mesmos refletimos para o espaço.
O Reencontro Acima das Nuvens
Nem tudo, porém, precisa ser puro desespero. No ano passado, viajando pelas montanhas geladas do sul do país, deitei na grama úmida de orvalho e encarei o cinturão de estrelas acima de mim. Senti uma faísca quente na alma, um arrepio diferente.
Imaginar um contato extraterrestre pode carregar a mesma ironia deliciosa de reencontrar um velho amigo de infância numa esquina qualquer, trinta anos depois do último abraço. Aquele espanto momentâneo que logo vira um sorriso largo, quebrando o silêncio duro de décadas.
Nós passamos a vida lendo os relatos dos navegadores antigos que cruzaram as águas temíveis pelo desconhecido, e num salto brusco do pensamento, vejo que somos apenas os novos marinheiros do infinito. Podemos achar nossos iguais no escuro. Irmãos distantes que já sentiram a queimação da guerra e escolheram a trilha da paz. O coração acelera no peito ao cogitar que, no limite daquele breu enorme, há uma mão amigável estendida na nossa direção.
O Cheiro de Arroz Queimado
Apesar dessa vontade repentina de olhar para cima sorrindo, a vida real aperta o pescoço com seus dedos sujos de poeira e rotina. Fui até o fogão agora há pouco, perdi o foco na panela fervendo e o cheiro forte de arroz queimado tomou conta da casa toda.
Sou um verdadeiro desastre tentando cuidar do almoço de domingo da minha família. Esse tropeço culinário besta me devolve ao chão duro. Somos assim. Falhos, atrapalhados e cheios de jantares perdidos na memória. Nossa trajetória prova que mal conseguimos controlar a chama pequena do nosso próprio fogão, muito menos um encontro com o totalmente desconhecido.
O último... quer dizer, o primeiro contato extraterrestre, se um dia cruzar nosso caminho, vai cobrar de nós um controle emocional que eu não tenho nem para lavar a louça sem deixar cair um copo de vidro. Queremos acreditar cegamente na nossa grandeza e bondade, mas o realismo da nossa condição mostra que ainda somos meninos assustados no escuro. Fica a certeza incômoda de que talvez seja muito melhor que o universo continue quieto no seu canto, enquanto nós tentamos, varrendo cacos de caneca e raspando panelas, limpar a bagunça que deixamos no nosso próprio teto.
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