Por que a Inteligência Não Garante a Liderança no Bando
Sou o Roger Marques, escrevendo aqui da minha mesa no interior de São Paulo. Minha rotina é uma confusão áspera e barulhenta. Passo os dias tentando consertar os encanamentos e dobradiças que eu mesmo quebro pela casa — sou terrivelmente desastrado com qualquer ferramenta — ou correndo atrás do Leo, meu filho de seis anos, que herdou essa mesma destreza trágica e tropeça até na própria sombra no quintal. E para piorar o cenário, divido meu escritório com o "Bóris", um furão de estimação hiperativo que sobe na mesa, rouba minhas canetas e derruba meus objetos no chão duro, quebrando pelo menos um copo por semana. A vida real tem esse chiado constante, uma sujeira gostosa. Adoro viajar e colocar as mãos na terra, entrar em contato com os bichos onde quer que eu vá, mas sempre acabo voltando para essa desordem caseira. Observando a matilha de cachorros do meu vizinho agindo em bloco ontem, lembrei daquele experimento mental assombroso dos cem homens jogados numa ilha hostil. Eles precisavam sobreviver ao clima e às feras. Para não morrerem na praia, eles inventam uma língua própria, erguem um mito fundador do zero e realizam rituais agressivos para colar a carne de um no outro. O líder que eles escolhem nunca é o sujeito de fala mansa ou o mais inteligente, mas aquele com um brilho maníaco no rosto, disposto ao sacrifício absoluto para provar sua devoção cega ao bando.
O Suor Seco dos Antigos Campos de Batalha
Essa ideia de forjar um corpo único sangrando junto não é uma abstração de ilha deserta. Olhe para a história com uma lente fria. Tebas e Esparta sabiam exatamente o que estavam fazendo. O cimento militar deles era a brutalidade crua esfregada na pele jovem, forçando relacionamentos mentores dolorosos para criar uma força militar onde um homem morreria pelo outro sem piscar. Filipe II e Alexandre engoliram essa exata tática para engolir reinos inteiros depois. Eles entendiam que uma coesão extrema muda o peso da lança na guerra. Essa união forçada gera uma mente de enxame onde o indivíduo perde o rosto e age em uníssono, priorizando a matilha acima da própria respiração. O governante no topo da cadeia militar sabe que o sangue compartilhado é a única argamassa real do poder.
A Engrenagem Fria que Tritura as Regras
Aqui o cenário perde qualquer verniz de civilidade. A regra de ouro do mundo não é o mérito, é vencer o tabuleiro a qualquer custo. Os homens de terno que você vê nas telas apertando mãos sorridentes? Eles são apenas vitrines bem decoradas. Presidentes e primeiros-ministros servem de máscara para sociedades fechadas que dominam a velha arte do sincronismo. A verdadeira elite domina o jogo porque rasga os tabus sem remorso. Eles executam atos que fazem o estômago do cidadão comum revirar, pois é exatamente a quebra dessas regras invisíveis que cimenta a lealdade doentia entre eles. É o mesmo gosto amargo de encontrar um velho amigo de escola depois de trinta anos e perceber que ele agora é o cara que cobra propina na prefeitura local; a ironia queima a garganta como uísque falsificado. Eles pisam no resto de nós. Queriam... eu queria falar sobre a punição disso... quer dizer, eles comandam a máquina justamente porque abandonam a decência em favor de uma coesão extrema, destruindo quem joga limpo.
O Retorno Escuro à Centelha Divina
Ao afastarmos a poeira sufocante desse jogo de poder, esbarramos numa lógica metafísica congelante. Se este mundo físico é mesmo uma prisão de sombras, como murmuravam os platônicos e os gnósticos na antiguidade, toda essa matança e organização de elites são apenas ratos brigando pelo melhor lugar dentro de uma gaiola trancada. O verdadeiro propósito seria retornar à luz original pelo conhecimento oculto, escapando da matéria. Dante Alighieri enxergava o mapa de fuga de uma maneira diferente. Para ele, o amor absoluto era a centelha divina, o único fogo capaz de queimar as correntes materiais e nos devolver à divindade. No fim da linha, essa coesão extrema que as elites secretas usam para esmagar a humanidade acaba sendo apenas uma cópia invertida, uma paródia apodrecida daquela verdadeira conexão espiritual que os antigos buscavam nas estrelas.
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