Melhores Orientações sobre abrir uma lanchonete de sucesso que qualquer iniciante consegue dominar
São 03:42 da manhã. Acabei de fechar o caixa e limpar a gordura que fica incrustada nos rejuntes do balcão. Meus dedos estão queimados e minhas costas doem, mas o movimento de hoje pagou o aluguel da semana. Muita gente me manda e-mail perguntando como largar o escritório e viver de comida. Acham que é glamour, que é virar chef de TV. Não é. É guerra diária. Se você quer mesmo entrar nessa trincheira e abrir uma lanchonete de sucesso, precisa parar de ler manual de franquia e ouvir quem está com a barriga no balcão.
Preparei uma lista com o que realmente acontece no asfalto, longe das planilhas bonitinhas.
A falácia do "lugar dos sonhos" e a calçada real
Todo mundo quer o ponto no bairro nobre, com ar-condicionado central e piso de porcelanato. Esquece. 1. O ponto é onde o povo está, não onde você quer estar. O meu trailer fica numa esquina que venta muito e a calçada é torta. Mas passa gente o dia todo indo para o ponto de ônibus. É feio, mas vende. 2. O aluguel não pode comer seu lucro antes de você vender o primeiro pão. Vi caras quebrando em três meses porque gastaram tudo na reforma e esqueceram que o boleto vence todo dia 10. Comece pequeno, num lugar que seu bolso aguente se chover por uma semana seguida.
O cardápio não é lugar para seu ego
Aqui entra o erro clássico do iniciante que assiste muito programa de culinária. 3. Ninguém quer decifrar seu cardápio. O cliente chega com fome, cansado do trabalho. Ele quer saber se tem X-Bacon e se vem com maionese caseira. 4. Menos é sempre mais. Tive a ideia genial de fazer dez tipos de molhos no começo. Joguei nove fora. Fique com o básico bem feito. Um pão fresco vale mais que dez ingredientes com nomes difíceis.
Quando você decide abrir uma lanchonete de sucesso, a tentação de inventar moda é grande. 5. A batata frita é a alma do negócio. Parece detalhe, mas batata murcha derruba qualquer sanduíche gourmet. Aprendi a fritar duas vezes para ficar crocante na marra. O cliente volta pela batata, acredite.
A matemática da chapa suja
Não adianta ser simpático se você não sabe contar. 6. O desperdício é o sócio que te rouba. Aquele tomate que você joga fora porque cortou demais? É o seu lucro indo para o lixo. Eu peso tudo. Se sobrar alface, eu sei que errei na compra. 7. O fornecedor não é seu amigo. O cara da bebida vai tentar te empurrar engradado perto de vencer. O do pão vai atrasar. Tenha sempre um plano B, ou vai acabar comprando insumo no mercado da esquina pagando o triplo do preço.
A psicologia do balcão engordurado
Você vai lidar com gente. E gente é complicado. 8. O cliente chato faz parte do ecossistema. Tem o cara que pede "bem passado, mas suculento", o que é fisicamente impossível. Sorria, balance a cabeça e faça o seu melhor. Brigar não paga conta. 9. A velocidade vence a perfeição. Entre um lanche lindo que demora 40 minutos e um lanche feio que sai em 10, o faminto escolhe o rápido. A chapa tem que cantar num ritmo frenético. Se parou, perdeu dinheiro.
Teve uma terça-feira que a luz acabou no meio do expediente. O gerador do vizinho funcionava mas o meu não a fiação estava velha e o eletricista sumiu. Foi um caos, servi refrigerante quente e pedi desculpas. Acontece.
O dinheiro não é seu, é da loja
Essa é dura de engolir. 10. O caixa não é carteira. Vejo muito dono pegando dinheiro da gaveta para pagar conta pessoal ou comprar cerveja no fim de semana. Isso é suicídio. O dinheiro do caixa é para repor o estoque de amanhã. O que sobrar no fim do mês, se sobrar, é seu. 11. Tenha um fundo de reserva para o gás que acaba. A lei de Murphy mora na cozinha. O gás sempre acaba na hora do pico. A geladeira pifa no verão. Se não tiver dinheiro guardado para consertar na hora, você fecha as portas.
A verdade sobre a vida social
Para encerrar, algo que ninguém te conta quando você pesquisa sobre abrir uma lanchonete de sucesso. 12. Seus finais de semana acabaram. Enquanto seus amigos estão no churrasco ou na balada, você está limpando gordura ou atendendo bêbado laricado. É uma troca. Você troca sua sexta-feira à noite pela liberdade de não ter chefe.
No fim das contas, ver o cliente limpar o prato com o último pedaço de pão dá uma satisfação estranha. É cansativo, é sujo, é barulhento. Mas é meu. E se você tiver estômago para aguentar os trancos, pode ser seu também. Agora deixa eu ir, que o entregador de pão chega em duas horas e eu ainda nem fechei os olhos.
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