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Sintomas de alguém que esteja com algum tipo de câncer que você provavelmente nunca ouviu falar

São 3:42 da manhã. A luz amarela do poste lá fora está piscando de novo e eu não consigo tirar da cabeça a imagem da minha tia Mércia reclamando daquela coceira no braço meses antes de tudo desabar. Ninguém deu ouvidos. "É pele seca, dona Mércia", diziam. Passaram um creme caro e mandaram ela para casa. Se tivessem olhado direito, teriam visto que o corpo dela estava gritando.

A medicina moderna é ótima para consertar ossos quebrados, mas é péssima em ouvir sussurros. E o câncer, meus caros, começa sussurrando.

Eu passei os últimos seis meses lendo tudo o que caiu na minha mão. Revistas médicas gringas, fóruns de pacientes que foram ignorados, relatos de enfermeiras que veem o que os doutores não veem. A gente acha que sabe o que procurar. Caroços, sangue, dor insuportável. Mas a realidade é mais sorrateira. O corpo dá sinais estranhos, bizarros até, que parecem desconexos.

O mapa desenhado na pele e nas unhas

Você olha para a sua mão agora. As pontas dos seus dedos parecem maiores? As unhas estão se curvando para baixo, abraçando a ponta do dedo como se fossem garras suaves? Chamam isso de baqueteamento digital. A tia Mércia tinha isso. A gente achava engraçado. É um sinal clássico, mas ignorado, de problemas no pulmão. O corpo, sem oxigênio direito, muda a arquitetura das extremidades.

E aquela coceira? Não é picada de mosquito. É uma coceira interna, chata, que banho nenhum resolve. O fígado ou os gânglios linfáticos, quando estão sob ataque, liberam substâncias que irritam as terminações nervosas. Se você vê alguém que esteja com algum tipo de câncer sem saber, muitas vezes vai flagrar essa pessoa se coçando distraidamente durante um jantar, sem nenhuma erupção visível na pele.

Outra coisa que me deixa maluco: a tal da Acanthosis nigricans. Nome difícil para uma mancha escura, aveludada, que aparece nas dobras do pescoço ou nas axilas. Parece sujeira. A pessoa esfrega com bucha vegetal e não sai. Isso não é falta de higiene, é o estômago avisando que tem algo muito errado acontecendo lá embaixo.

Quando o banheiro vira sala de interrogatório

Ninguém gosta de olhar para o que deixa na privada. Mas devia. Sabe aquele cocô fino, parecendo um lápis ou uma fita? Não é só "intestino preso". Pode ser que tenha algo bloqueando a passagem, estreitando o túnel. É mecânica pura. Se o cano aperta, o que sai é fino.

E tem o xixi. Se você, homem ou mulher, começa a ir ao banheiro de hora em hora, não pense logo em infecção ou próstata. Às vezes, o tumor produz cálcio demais no sangue — hipercalcemia. Isso faz você ter sede de camelo e mijar feito uma cachoeira. Dá uma confusão mental junto, uma lerdeza que a família acha que é "cansaço da idade". Não é.

A traição dos sentidos

Aqui a coisa fica pessoal. A tia Mércia parou de comer carne seis meses antes do diagnóstico. Ela dizia que tinha "gosto de ferro". Disgeusia. O tumor libera proteínas que alteram o paladar. A comida favorita da pessoa vira serragem na boca.

E a saciedade precoce? A pessoa senta para comer aquela feijoada de domingo, dá duas garfadas e diz "tô cheia". E está mesmo. Mas não de comida. Pode ser líquido acumulado na barriga (ascite) ou o próprio tumor ocupando o espaço onde o feijão deveria estar. A barriga incha, mas a pessoa emagrece nos braços e pernas. É um contraste visual que gela a espinha.

Outro detalhe que passa batido: a voz. Se a rouquidão dura mais de três semanas e você não gritou num estádio de futebol nem pegou gripe, acenda o alerta. Um tumor no pulmão pode pressionar o nervo laríngeo recorrente. A voz muda porque o nervo que comanda as cordas vocais está sendo esmagado lá embaixo, no peito. O problema não é na garganta, é a fiação que passa por um lugar perigoso.

Dores que mentem para você

O corpo é mestre em pregar peças. Dor no ombro direito? A maioria vai no ortopedista, toma anti-inflamatório e faz fisioterapia. Mas o ombro continua doendo, e piora quando deita. O fígado fica logo abaixo do diafragma. Se ele incha ou tem um tumor, ele irrita o nervo frênico. E o nervo frênico manda o sinal de dor para onde? Para o ombro. É uma "dor referida". Você trata o ombro e o problema está na barriga.

O mesmo vale para dor nas costas, aquela dorzinha chata entre as escápulas ou na lombar que não melhora com massagem. Pâncreas. A tia Mércia vivia com bolsa de água quente nas costas. O pâncreas fica lá no fundo do abdômen, encostado na coluna. Quando ele cresce, empurra tudo para trás.

O suor e o olho da câmera

Acordar encharcado. Não estou falando de suar um pouco porque está calor. Estou falando de ter que trocar o lençol às duas da manhã porque parece que jogaram um balde de água em você. Linfomas adoram fazer isso. O corpo tenta "cozinhar" o invasor subindo a temperatura à noite e o termostato quebra.

E uma curiosidade macabra que vi num fórum ontem: o olho que brilha na foto. Sabe quando sai o "olho vermelho" com o flash? É normal. Agora, se numa foto uma pupila fica vermelha e a outra fica branca ou amarelada, corre para o oftalmologista. Retinoblastoma faz isso. É mais comum em criança, mas acontece.

Escute o que não é dito

Eu poderia ficar aqui listando febre que vai e volta sem motivo, hematomas que aparecem do nada onde a gente nem bateu, ou aquele cansaço que uma noite de sono de 12 horas não resolve. Mas o ponto não é fazer você virar um hipocondríaco maluco. O ponto é parar de terceirizar a responsabilidade sobre a sua carcaça.

Se você notar alguém que esteja com algum tipo de câncer apresentando esses sinais sutis, não seja o chato que assusta, mas seja o amigo que insiste. "Vai ver isso aí". Porque os médicos têm 15 minutos por consulta e olham para exames, não para pessoas. Eles veem números. Nós temos que ver a vida.

A tia Mércia dizia que a intuição é o anjo da guarda falando no ouvido da gente. Pena que na época o anjo falou baixo demais e a gente acretidou no homem de branco que disse que era estresse. Não cometa o mesmo erro. Observe as unhas, a pele, o banheiro e o prato de comida. O diabo mora nos detalhes, e a salvação, às vezes, também.

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