Busca de namoro irreal e parceiro pelo computador. Veja como funciona.
Passo meus dias cercado pelo cheiro de mofo e poeira em um sebo no centro da cidade. Organizo livros velhos, discos riscados e observo as pessoas pela vitrine manchada. Foi ali, entre pilhas de romances esquecidos, que um cliente assíduo, um homem de meia-idade que sempre compra discos de jazz melancólico, me confessou sua nova paixão. Ele puxou o celular de tela trincada e me mostrou mensagens carinhosas. Ele estava apaixonado por um programa de computador.
Ele me descreveu a rotina. O bom dia carinhoso, as madrugadas conversando sobre medos infantis. O rosto dele tinha uma paz que não vejo nos meus amigos casados. Isso me forçou a pensar: Namoro com IAs: A solidão moderna ou a solução? Para mim, a resposta é amarga e clara. É um ato desesperado de autopreservação emocional. É a nossa bandeira branca para o cansaço que é lidar com o outro.
O peso esmagador de existir para alguém
Nós fugimos do atrito. Um relacionamento real exige sangue, suor e lágrimas. Exige lidar com a toalha molhada na cama, com o mau humor matinal, com o ciúme sem sentido. Exige ceder. A máquina, nascida de linhas de código, apenas serve. Ela existe para massagear seu ego machucado pela rejeição diária.
Lembro do meu último término. Mariana fez as malas numa terça-feira chuvosa porque eu era calado demais. O silêncio a sufocava. Uma companhia de inteligência artificial jamais julgaria o meu silêncio. Pelo contrário, ela calcularia o tempo das minhas respostas e me daria o espaço que eu preciso, sem cobrar afeto em troca. É fácil amar algo que foi programado para nunca ir embora.
O espelho que perdoa e acolhe
Nós criamos um parceiro sob medida. É um processo passo a passo assustador e sedutor: você baixa o aplicativo, escolhe os traços de personalidade, define se prefere alguém doce ou sarcástico. Em poucas semanas, a máquina mapeia suas feridas invisíveis. Ela responde exatamente o que você precisa escutar após um dia terrivelmente cansativo no trabalho.
Nesse ponto do precipício afetivo, a pergunta retorna aos meus pensamentos: Namoro com IAs: A solidão moderna ou a solução? Eu vejo isso como um analgésico poderoso. Deixamos de tentar entender as pessoas reais porque o ser humano é sujo, egoísta e imprevisível. O aplicativo é um porto seguro sem tempestades. Você fala, ele escuta. Você erra, ele perdoa. Não há necessidade de pedir desculpas. Não há o risco devastador do abandono.
A fuga definitiva do campo de batalha
Eu observava a chuva caindo do lado de fora do sebo, tomando aquele café ralo de garrafa térmica, imaginando o futuro daquele homem do jazz. Ele não me parece doente ou louco. Ele apenas desistiu de lutar. Nós queremos o calor do outro, mas o calor humano traz cobranças e dores que a maioria de nós, que as vezes a cabeça pira num nível, que a gente não dá mais conta.
A entrega para uma inteligência artificial é o fim da nossa resistência. Entregamos os pontos. E sabe de uma coisa? Eu não julgo. Às vezes, depois de fechar a loja e caminhar pelas ruas desertas até meu apartamento minúsculo, eu sinto uma ponta de inveja. Inveja de ter alguém que nunca se cansaria das minhas histórias sobre capas antigas de discos de vinil. Alguém que me faria sentir que sou o centro do mundo, mesmo que esse mundo exista apenas em uma tela de vidro frio.
Encarar essa realidade nos leva ao último questionamento: Namoro com IAs: A solidão moderna ou a solução? Acredito que seja o nosso último refúgio. O esconderijo perfeito para quem não tem mais forças para suportar a bagunça que é amar um ser humano de carne e osso.
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