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Veículo Metálico do Governo
Oi. Meu nome é Roberto. Mas quem frequentava a oficina de tornearia na rua da Mooca me conhece como Beto Manivela. Passei trinta anos da minha vida sujando as mãos de graxa, arrumando motor de Opala e ouvindo promessas vazias de políticos no rádio de pilha. Hoje, aposentado das chaves de boca, passo meus dias na varanda de casa, tomando café coado bem forte e olhando para o céu de São Paulo. E é exatamente olhando para cima que me deparo com a maior piada pronta que as autoridades estão tentando montar. Estão querendo colocar regras no vento. Quando o assunto é Carros voadores urbanos: A regulamentação brasileira, eu sinto o gosto amargo da papelada antes mesmo da primeira hélice girar.
O peso do carimbo que impede a decolagem
A prancheta sempre foi a verdadeira âncora deste país. As pessoas acham que a maior dificuldade de fazer uma máquina levantar voo é a gravidade. Grande bobagem. A gravidade a gente vence com motor bom e bateria pesada. O que derruba qualquer projeto de engenharia por aqui é a vontade absurda de exigir assinatura.
A coisa toda vai funcionar assim, pode anotar. O sujeito junta dinheiro a vida inteira para trazer um aparelho de fora ou tenta montar um protótipo aqui mesmo. Aí ele precisa de uma licença para tirar a máquina do chão. O poder público não entende o que o aparelho é. Na cabeça deles não é helicóptero, não é avião pequeno e também não é drone de filmar festa. Então, eles montam uma comissão para decidir. Essa comissão exige um laudo técnico. O laudo precisa de firma reconhecida no cartório.
É um passo a passo desenhado para a frustração pura e simples:
O dono do veículo entra com o pedido de registro no departamento de trânsito estadual.
O departamento diz que a responsabilidade do ar é da aeronáutica e recusa o papel.
A aeronáutica devolve o processo para a prefeitura da cidade, porque a rota de voo é baixa demais.
A prefeitura pede um estudo de impacto na sombra dos prédios.
E assim o sujeito morre de velho na fila de espera com uma máquina encostada na garagem. É impressionante como o tema Carros voadores urbanos: A regulamentação brasileira atrai gente de terno com vontade de cobrar taxa. Eles não querem que ninguém saia do chão. Eles querem apenas descobrir como cobrar um pedágio no espaço vazio entre o teto da sua casa e as nuvens.
A minha briga com o vento no guichê quatro
Eu tenho propriedade no assunto. Lá atrás, eu montei um ultraleve de tubo de alumínio no fundo do meu quintal. Coisa linda, bem feita. Motor de Fusca ajustado na mão, solda caprichada. Fui tentar registrar a engenhoca para voar no campo de um amigo. Quando cheguei no balcão de atendimento lá em 201... não, acho que foi no começo de 2013, a atendente do guichê quatro olhou para a foto do meu projeto e perguntou, com a maior cara de tédio do mundo, onde ficava o suporte para a placa do veículo.
Eu ri achando que era brincadeira. Ela não riu. Pediu o número de chassi gravado no bloco. Voltei para casa, guardei os papéis na gaveta e vendi as peças do ultraleve como sucata.
Essa mesmíssima mentalidade de guichê está escrevendo as regras das máquinas de hoje. Eles querem colocar semáforo invisível no céu. Imagine o trânsito da Marginal Pinheiros, só que pairando a cem metros de altura. Se não conseguem tapar um buraco no asfalto da minha rua, como vão organizar cruzamentos que ninguém vê? É por causa disso que Carros voadores urbanos: A regulamentação brasileira nasce como um fantasma no papel. Assusta quem tenta produzir algo diferente e só serve para dar dinheiro para despachante.
O pedágio das nuvens e o fim da linha
O que mais irrita é a ilusão vendida na televisão de que isso será para o povo usar no dia a dia. Nunca será. Vai ser um brinquedo de luxo para gente rica pular do bairro nobre direto para a sala de embarque do aeroporto, sem pisar na poça de água da rua. E os fiscais vão aplaudir, desde que o imposto caia na conta do estado.
Eles vão exigir cursos de pilotagem que custam o preço de uma casa. Vão forçar a manutenção em oficinas aprovadas por eles mesmos, cobrando uma fortuna pelo selo de qualidade. O mercado vai nascer como um clube fechado para poucos.
Eu olho para a minha caixa de ferramentas velha no canto da sala e balanço a cabeça. A gente sabe muito bem como consertar uma máquina quebrada. A gente só não sabe como consertar a regra torta que escrevem lá em Brasília. O céu da minha cidade já é cinza o suficiente de tanta fumaça. Não precisamos de um bando de inspetores voadores atrapalhando o que restou da vista. Vou lá fazer um café fresco. O de hoje cedo esfriou enquanto eu lia mais um rascunho de lei inútil.
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