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Como a Busca por Aprovação Vira um Cativeiro Emocional

Estou aqui terminando meu frango xadrez — aquela caixa padrão que peço toda sexta-feira — e observando a fumaça subir. Vinte anos de casamento com a mesma mulher me ensinaram que a rotina tem seu valor, mas também que a gente gasta uma energia absurda tentando manter as aparências. No serviço público, onde bato ponto há quase o mesmo tempo, isso é ainda mais patente. Vejo colegas brilhantes se encolhendo, engolindo sapos e sorrindo amarelo, tudo porque o pavor de ser julgado é maior que a vontade de existir.

A verdade nua e crua é que a maioria de nós parou de crescer emocionalmente aos sete anos de idade.

O Fantasma da Memória Congelada

A gente acha que tem medo do que o chefe ou o vizinho vão pensar. Mentira. O que a gente tem é uma projeção. Analisando friamente, aquele medo de julgamento que faz seu estômago revirar não é sobre o "agora". É uma memória emocional congelada. É você, pequeno, com medo de perder o amor dos pais se não se comportasse bem.

Eu vejo isso em casa, de uma forma invertida. Tenho um filho autista. Ele não tem esse filtro, essa "persona" que Jung descrevia como a máscara social. Se ele não gosta, ele não ri. Se ele quer sair, ele levanta. Às vezes, no meio de um jantar social, eu sinto uma pontada de inveja da liberdade dele. Nós, os ditos "normais", construímos uma camada grossa de fingimento. E o problema é quando essa máscara cola na cara. A gente esquece quem é por baixo dela. Identificar-se excessivamente com a persona é o caminho mais rápido para viver preocupado com a opinião alheia, anulando qualquer chance de desenvolvimento real.

A Matemática Cruel da Exaustão

Existe um custo energético nisso que ninguém coloca na planilha. Tentar agradar todo mundo não gera amor, gera raiva. Percebo isso quando viajo. Lembro de uma vez na Tailândia, tentando ser o turista perfeito, educado, seguindo o roteiro "instagramável" para postar depois. Voltei mais cansado do que fui.

Quando você busca aprovação, você entrega seu poder de bandeja. E o pior: você começa a odiar as pessoas cuja aprovação você busca. É paradoxal. Você quer que elas te aplaudam, mas no fundo, sente desprezo por ter que se dobrar a elas. Isso sufoca o que chamamos de propósito de vida. Você entra numa frequência de dependência e comparação que drena a bateria da alma.

E tem a inveja. Ah, a inveja. Muita gente acha que ser "bonzinho" protege contra olho gordo. Errado. A busca desesperada por validação externa atrai inveja como lixo atrai mosca. A inveja é uma energia destrutiva que se alimenta da insegurança. Quem é autêntico de verdade, quem não está nem aí, cria uma espécie de blindagem natural. A autenticidade não pede licença, e por isso, ela é respeitada, mesmo que a contragosto.

O Retorno para Casa

A cura para essa doença social tem um nome bonito na psicologia: individuação. Mas na prática, é um processo sujo, difícil e solitário. É um retorno a si mesmo.

Para parar de viver preocupado com a opinião alheia, você precisa começar a ouvir as vozes na sua cabeça e identificar quem está falando. É sua intuição ou é a voz da sua tia chata que criticava seu cabelo em 1998? Muitas vezes, o julgamento que você vê no olhar do outro é só sua própria sombra projetada. Você julga a si mesmo e coloca esse veredito na boca do colega de trabalho.

O processo exige acolher a criança interior. Aquela parte sua que aprendeu a agradar para sobreviver. Eu tenho passado muito tempo lendo e escrevendo no meu escritório, cercado de livros, tentando entender meu próprio "código arquetípico". Cada um de nós tem uma combinação única de arquétipos — forças que definem nossa essência. Ignorar isso para seguir a manada é suicídio espiritual.

A Coragem de Desagradar

Aqui vai a parte que ninguém gosta de ouvir: desagradar faz parte do trabalho. Se você está vivo e cumprindo sua missão, você vai incomodar. Arquétipos transformadores desafiam o status quo. Se ninguém está torcendo o nariz para você, provavelmente você está sendo inofensivo demais.

A maior rebelião que você pode fazer hoje não é sair quebrando vidraças, mas ter a coragem de ser quem você é. Sem pedir desculpas. É entender que viver preocupado com a opinião alheia é uma escolha de permanecer numa prisão com a porta aberta. A autenticidade é contagiante. Quando você se liberta, você dá permissão silenciosa para que os outros ao seu redor façam o mesmo. E talvez, só talvez, isso seja mais importante do que qualquer "like" ou tapinha nas costas que você passou a vida perseguindo.

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