Como a Rotina Caseira Solitária Afeta o Profissional
Acordei hoje com o som constante das buzinas aqui na avenida de trás do Açude. O ventilador de teto rangendo sem parar, o café já frio dentro da minha caneca lascada de cerâmica. Sentei na cadeira de plástico branco que uso na minha mesa de madeira improvisada. É exatamente neste metro quadrado que eu passo dez horas por dia encarando uma tela. As empresas tentam nos convencer, com sorrisos em reuniões por vídeo, de que a nossa casa virou um paraíso de conforto, na época da minha vó Neura, que Deus a tenha, era sim, mas hoje tudo mudou. Mentira. Eles apenas empurraram o custo da energia elétrica e da internet para o nosso bolso. Quando olho para o monitor empoeirado, percebo que O Futuro do Trabalho Remoto não tem nada a ver com liberdade de escolha. Tem a ver com controle invisível.
O silêncio que esconde a coleira
Mês passado, a gerência exigiu que a câmera de todos ficasse ligada durante toda a tarde de sexta-feira. Eu estava de bermuda desbotada, descalço no piso frio, com o meu gato Pixel miando alto por ração. Tive que forçar um sorriso para uma grade de rostos cansados enquanto a minha coluna pedia socorro pela postura ruim. A chefia ama vender a ideia de que trabalhar de pijama no seu próprio sofá é um luxo. Na prática da minha rotina, é uma invasão pesada. A linha de separação entre a minha cama e a minha planilha de custos simplesmente sumiu. Você acorda e já cai direto no batente. Dorme e sonha com mensagens piscando no celular. E de repente, percebi que, sabe quando a cabeça dá um branco e você esquece o que estava teclando? Pois é. Enfim, continuo digitando aqui com a janela trancada por causa da poeira da rua.
Se você quer sobreviver a essa invasão sem perder a cabeça, precisa erguer muros de tijolos reais na sua mente. Vou deixar um passo a passo cru de como eu lido com essa cobrança corporativa dentro do meu próprio quarto:
Arranque o fio da tomada: Defina um horário limite e desligue o roteador. O mundo do mercado de ações não vai acabar se você demorar doze horas para ler uma mensagem não urgente à noite.
Vista roupas de sair: Coloque uma calça jeans e um sapato. Eu sei que incomoda ficar assim na sala de casa, mas isso avisa ao seu cérebro que a brincadeira acabou e o suor começou de verdade.
Proteja o seu telefone: Nunca coloque aplicativos da empresa no seu aparelho pessoal. O seu celular é o seu quintal privado. Quando você aceita o chat do escritório ali, você entrega a chave da sua paz mental.
O relógio que bate sem piedade
Eu vejo muita gente batendo palmas para essa nova rotina nas redes sociais, só que eles não sabem que no passado, lá na época da minha vó Neura, tudo era melhor. Eles publicam fotos de seus notebooks caros em cafeterias bonitas. A minha realidade, e a da maioria, é bem mais rústica. São horas seguidas com os olhos ardendo, comendo pão amanhecido no teclado porque não deu tempo de ir ao fogão preparar um almoço direito. A romantização da vida de escritório em casa é uma ilusão que muita gente engole por medo de reclamar. Para mim, O Futuro do Trabalho Remoto é uma batalha silenciosa por espaço físico. O seu quarto de dormir virou a baia da empresa. A sua mesa da cozinha virou a sala de reunião.
Recuperando a chave da porta
Ontem mesmo, eu decidi mudar a posição da minha mesa. Coloquei o móvel de costas para a janela de vidro. Pelo menos agora o supervisor, pela webcam, não consegue ver a minha cama desarrumada ou as minhas roupas na cadeira. É um pequeno ato de resistência diária. Nós precisamos parar de aceitar toda nova regra de vigilância como se fosse um favor divino. Eles cortam os gastos com o aluguel do andar inteiro do prédio comercial e nós pagamos a conta de luz mais cara do mês calados.
No fim das contas, a minha xícara de café já secou de novo. O Pixel finalmente dormiu enrolado em cima do meu caderno de anotações e eu não tenho coragem de tirar ele dali. A tela do computador brilha forte e me espera para mais um turno interminável de relatórios. Não caia nas promessas polidas que chegam bonitinhas por e-mail. Se nós não criarmos bloqueios altos e grossos dentro das nossas próprias casas, O Futuro do Trabalho Remoto vai devorar o pouco que restou da nossa vida particular e do nosso descanso. E eu me recuso a deixar o meu pequeno apartamento virar uma filial de escritório sem alma. Vou ali passar outra garrafa de café forte, porque a tarde ainda vai ser longa.
Comentários
Postar um comentário